Uma análise sobre como o atentado de 8 de janeiro em Brasília teve muito mais a ver com psicologia do que política e se relaciona com os fenômenos de dissonância cognitiva e psicologia das massas
Este texto está sendo aqui publicado como uma elaboração que deriva de um ensaio publicado no livro Midiatização, Pandemia e Eleições: disputas e transformações nas discursividades contemporâneas pelo Centro Internacional de Semiótica e Comunicação (Ciseco), como parte do XII Pentálogo que debateu as transformações da midiatização presidencial em 2022. A ideia surgiu a partir da conversa realizada com Antônio Heberlê em vídeo[2] no canal do YouTube para o XII Pentálogo do Ciseco. No vídeo, conversamos sobre o artigo de Heberlê, que tem o título “Sobre o pensamento lógico e o falso silogismo”, também publicado no mesmo livro, e debatemos, entre outras questões, sobre a problemática da dissonância cognitiva. Assim, eu resolvi me aprofundar neste texto sobre o assunto, aproveitando para analisar o fatídico episódio das invasões que ocorreram em 8 de janeiro em Brasília por apoiadores bolsonaristas.
Na conversa que tivemos, o autor explica que tenta compreender no seu artigo por que as pessoas em geral preferem acreditar nas Fake News, buscando entender o fenômeno que faz com que as pessoas escolham criar ilusões do saber, vivendo uma realidade alternativa. Ele cita o físico britânico Stephen Hawking quando este afirma que o maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, mas sim a ilusão do conhecimento. Heberlê inclusive divaga que, por conta de uma grande proliferação de informações, vivemos atualmente um fenômeno de falta de dialética discursiva, porque não se aprofundam questões, o que pode estar ocasionando justamente o surgimento de falsas questões.
Posteriormente, Heberlê introduz a ideia de dissonância cognitiva, conceito abordado pelo psicólogo americano Leon Festinger no final dos anos 50. Ele explica que a nossa mente é capaz de inventar novos pensamentos, novos valores ou até mesmo manipular conceitos e crenças, com a finalidade de reduzir ou eliminar efeitos de tudo aquilo que seja diferente do que a pessoa acredita. Então, a pessoa reúne um conjunto de “informações” para sustentar aquela ideia. Essa dinâmica, é definida por Festinger como dissonância entre cognições. Antônio Heberlê inclusive esclarece no vídeo que essas ideias e crenças são perpetuadas entre gerações, pois esse fenômeno é próprio de um mundo que vive entre campos de pressão.
Sobre Dissonância Cognitiva
Entretanto, algumas considerações precisam ser feitas a respeito do conceito elaborado por Festinger sobre dissonância cognitiva. Primeiro, porque ele parte da racionalização sobre coerência para elaborar a ideia de dissonância, ou seja, de que todo indivíduo se esforça para atingir um estado de coerência consigo mesmo. Porém, na psicologia, existem muitas outras racionalizações a que as pessoas recorrem para eliminar as suas incoerências internas. Por isso Festinger considera mais correto substituir o termo “incoerência” por “dissonância”, porque, segundo ele, a existência de dissonância, ao ser psicologicamente incômoda, motivará a pessoa a tentar reduzi-la e realizar a consonância, pois quando a dissonância está presente, a pessoa, além de procurar reduzi-la, evitará ativamente situações e informações suscetíveis de aumentar a dissonância. Outra questão muito importante a ressaltar quanto à ideia de dissonância cognitiva é que ela pode ocorrer devido a uma série de fatores, que podem ser desde uma inconsistência lógica, uma tradição cultural estabelecida, a crença sobre uma determinada opinião política ou uma experiência vivida. Ou seja, a dissonância cognitiva precisa ser observada através de um contexto. Dessa forma, é coerente deduzir que a dissonância, isto é, a existência de relações discordantes entre cognições, é um fator motivante por ele mesmo.
Segundo Leon Festinger, “a realidade que incide sobre uma pessoa exercerá pressões na direção do estabelecimento de uma correspondência entre os elementos cognitivos apropriados e esta realidade.” Mas isso não significa que os elementos cognitivos correspondam sempre, na verdade, uma das consequências importantes da teoria da dissonância é que não há correspondência entre os elementos cognitivos e a realidade. Entretanto, é exatamente pelo fato dos elementos cognitivos não corresponderem a uma certa realidade que começam a ser exercer certas pressões. Essa relação hipotética entre os elementos cognitivos e a realidade é muito importante, justamente porque permite medir a dissonância. Por conta disso, de acordo com o autor, a mais importante fonte de resistência à mudança para qualquer elemento cognitivo é justamente a receptividade destes elementos à realidade.
Com relação à teoria da dissonância cognitiva, vamos nos reter em dois aspectos trabalhados por Festinger em sua teoria: a da exposição voluntária e involuntária à informação e o apoio do grupo social. Esses dois elementos são importantes de serem analisados em diálogo com a teoria da dissonância cognitiva, pois dão conta da problemática comunicacional e da especificidade do grupo social, aspectos dos quais falaremos mais adiante.
Sobre a questão da exposição à informação, é importante dizer que as pessoas em geral buscam se informar o tempo todo sobre informações que acharem pertinentes para a sua vida cotidiana ou para adquirirem conhecimento. Porém, se subentendemos que a informação é pertinente para o comportamento de qualquer pessoa, também é compreensível inferir que haja também uma provável motivação para que se adquira elementos cognitivos nessa área, como a busca por determinada informação. Dessa forma, existe uma seletividade na maneira que cada pessoa busca se informar, de acordo com sua própria maneira de ser e agir e do ambiente que a cerca. Mas certamente também existem alguns elementos que agem sobre esse processo, como a dissonância. A presença ou ausência de dissonância terá efeitos significativos sobre o grau de busca de informação e sobre a seletividade dessa busca de informação. Por exemplo, quanto menos dissonância houver, menos motivação a pessoa sentirá para buscar informações novas e adicionais.
Contudo, a maior maneira de proliferação de dissonância é justamente pelo contato forçado e involuntário com a informação, como através de peças publicitárias, postagens em redes sociais e através de interações com outras pessoas. Pois, quando uma nova cognição é imposta a uma pessoa, essa ação gera um forte impacto e frequentemente produz dissonância cognitiva. O grupo social também é uma fonte importante de dissonância cognitiva e um importante veículo para reduzir a dissonância que nele possa existir. De acordo com Festinger, “as informações e opiniões que lhe são comunicadas pelos outros podem introduzir novos elementos que são dissonantes com a cognição já existente”. Segundo ele, “a existência de discordância entre membros de um grupo sobre alguma questão ou opinião, se percebida pelos membros, certamente produzirá dissonância cognitiva”. Lembre-se que Festinger definiu a dissonância cognitiva com um meio que a pessoa elabora para reduzir as suas próprias incoerências internas. Entretanto, a concordância entre elementos de um grupo também pode criar uma forte reação de dissonância, como observa o autor. Ele afirma que quanto houver um grande número de pessoas que concordem com uma opinião que o indivíduo sustenta, maior será a magnitude de dissonância. Dessa maneira, se a maioria do grupo concorda e uma pessoa daquele grupo discorda, haverá uma pressão do grupo para forçar a pessoa discordante a concordar com o resto.
“Quanto maior o número de pessoas que um indivíduo sabe já concordarem com uma dada opinião que ele sustenta, menor será a magnitude da dissonância introduzida pela expressão de discordância de alguma outra pessoa. Como o conhecimento de que outrem tem a mesma opinião é consonante com o fato do indivíduo sustentar essa opinião, quanto mais pessoas concordarem com uma opinião, mais elementos cognitivos haverá em consonância com a cognição correspondente a essa opinião. Assim, se um membro de um grupo discordar da opinião de uma pessoa, enquanto outros muitos concordam, a magnitude da dissonância total criada para a pessoa será menor do que no caso de só existir discordância.” (Leon Festinger, 1975, p.163).
Freud e a psicologia das Massas
Por conta disso, é interessante relacionar a ideia de dissonância cognitiva com o estudo de psicologia das massas, de Sigmund Freud. O psiquiatra austríaco realiza no ensaio Psicologia das massas e análise do eu uma importante contribuição para se compreender os mecanismos de formação dos grupos, da submissão cega às massas a um líder e da intolerância ao diferente. Publicado em 1921, o texto é fruto de uma reflexão sobre a barbárie produzida pela Primeira Guerra Mundial e fala sobre conceitos como psiquê das massas, identificação, recalque, regressão, libido e hipnose. Freud inicia seu ensaio realizando uma aprofundada análise sobre o livro de Gustave Le Bon, Psicologia das Massas, que define o conceito de massa e de como a capacidade de influenciar tantos indivíduos é justamente a sua capacidade sistêmica. Ou seja: o indivíduo deixa de ser um indivíduo, deixando de agir isoladamente para confirmar um pensamento coletivo.
Le Bon define que o que há de mais singular numa massa psicológica é que qualquer pessoa, seja de qualquer nível de instrução, classe social ou nível de inteligência se transforma em uma massa coletiva ao interagir com um grupo, assim lhe transferindo uma alma coletiva. Assim, esse indivíduo passa a sentir, pensar e agir de uma maneira totalmente diferente da que sentiria, pensaria ou agiria isoladamente, como um indivíduo. Dessa forma, podemos perceber que a massa psicológica se transforma em um organismo, “é um ser provisório constituído por elementos heterogêneos que por um momento se ligaram entre si, exatamente como por meio de sua união as células do organismo formam um novo ser com qualidades inteiramente diferentes daquelas das células individuais”
Essa ideia de Le Bon, de alguma forma, dialoga com a noção de dissonância cognitiva trazida por Festinger. Contudo, Freud segue além neste pensamento, divagando que, se há uma unidade que aglutina essa massa, deve haver algum elemento que liga esses indivíduos, algum fator aglutinante, que é característico dessa massa. Outros interessantes aspectos destacados por Freud acerca do texto de Le Bon sobre o comportamento das massas define o comportamento hipnótico e contagioso, o desaparecimento da consciência moral ou do sentimento de responsabilidade, a sensação de ter qualidades especiais e o estado hipnótico, no qual o indivíduo entra em “um estado particular que muito se aproxima da fascinação que acomete o hipnotizado sob a influência do hipnotizador” (Freud, 2013 apud Le Bon, 1895). Nesses casos, a personalidade consciente da pessoa se perde por inteiro, não existe vontade e nem discernimento, todos os pensamentos e sentimentos são direcionados inteiramente pelo hipnotizador. O estudo de Le Bon também destaca o caráter primitivo da avaliação do indivíduo nas massas: “pelo mero fato de pertencer a uma massa organizada, o ser humano desce vários degraus na escala da civilização. Em seu isolamento, era talvez um indivíduo culto; na massa, é um bárbaro, isto é, um ser instintivo. Possui a espontaneidade, a violência, a ferocidade e também o entusiasmo e o heroísmo dos seres primitivos” (Le Bon, 1895, p.17).
Essa análise individual sobre o indivíduo que compõe as massas demonstra que a unidade que compõe o grupo nada mais é que uma peça desgovernada que é estrategicamente usada por um líder idealizado como figura paterna, com interesses bélicos, como Freud bem avalia posteriormente em seu livro. Apresentamos a seguir, um compilado de trechos sobre a análise que Sigmund Freud faz da obra de Le Bon, na qual ele apresenta a reflexão que o autor faz sobre a massa como um coletivo, e que se mostra bastante atual:
“A massa é impulsiva, instável e irritável. Ela é guiada quase que exclusivamente pelo inconsciente. […] Os impulsos aos quais a massa obedece pode, segundo as circunstâncias, ser nobres ou cruéis, heroicos ou covardes, mas em todo o caso são tão imperiosos que o interesse pessoal não se fará valer, nem sequer o interesse de autoconservação. […] A massa é extraordinariamente influenciável e crédula; é desprovida de crítica; para ela, o improvável não existe. Ela pensa por imagens que se evocam associativamente umas às outras, tal como ocorre ao indivíduo nos estados do livre fantasiar, e nenhuma instância razoável afere sua correspondência com a realidade. […] A massa é um rebanho obediente, que nunca pode viver sem senhor. Ela tem tal sede de obedecer que se subordina instintivamente a qualquer um que se nomeie seu senhor. […] O que ela exige de seus heróis é força, inclusive violência. Ela quer ser dominada, oprimida e temer seus senhores. No fundo completamente conservadora, ela tem a mais profunda aversão a todas as novidades e progressos e um respeito ilimitado pela tradição. […] E por fim: as massas nunca conheceram a sede da verdade. Elas exigem ilusões, às quais não podem renunciar. Nelas, o irreal sempre tem precedência sobre o real; aquele as influencia com quase tanta força quanto este (Freud, 2013, p.49-54 apud Le Bon, 1895, p. 20-47).
No entanto, Freud ainda reflete sobre o fator aglutinante que motiva esse comportamento primitivo das massas. Ele busca pistas na análise sobre a ideia de libido e do sugestionamento, mediante à identificação por enamoramento, pois segundo o autor, “as ligações emocionais também constituem a essência da psique das massas” (2013, p. 76). E a identificação, segundo Freud, “é conhecida pela psicanálise como a manifestação mais precoce de ligação emocional com uma pessoa” (2013, p.98). A identificação é essencial, por exemplo, na pré-história do complexo de Édipo, na qual ocorre a identificação com a figura paterna, em que se busca idealizá-la, tomando o pai como ideal. Essa característica afetiva torna o sugestionamento do líder como figura paterna, algo essencial ao funcionamento das massas, tendo em vista que, segundo o autor, o homem se sente incompleto quando se percebe sozinho. E essa sensação de pertencimento, de não estar sozinho, se amplifica quando a identificação entre os demais é projetada em uma figura-líder: “o sentimento social repousa na transformação de um sentimento inicialmente hostil em uma ligação com ênfase positiva que tem a natureza de uma identificação. Tanto quanto podemos compreender o processo até agora, essa transformação parece se efetuar sob a influência de uma ligação terna comum com uma pessoa que se encontra fora da massa” (Freud, 2013, p.127).
Assim, a massa é mantida coesa, através de alguém que exerce poder, fazendo com que o indivíduo deixe de lado a sua própria singularidade e se deixe sugestionar por uma outra pessoa, porque a motivação deste indivíduo existir é justamente a necessidade de estar em harmonia com essa figura idealizada. Freud procura relacionar a formação das massas à ideia de horda primordial, conceito de Charles Darwin, para ilustrar a imagem de uma horda governada soberanamente por um macho forte, cujo desenvolvimento do totemismo “abrange os primórdios da religião, da moralidade e da estrutura social” (2013, p.129).
Freud explica que a formação das massas se solidifica a partir de uma figura líder, identificada como uma figura paterna que sugestiona ações: “assim, o caráter sinistro e compulsório da formação de massas, que se mostra em seus fenômenos sugestivos, provavelmente pode ser atribuído com razão à proveniência da horda primordial. O líder da massa continua sendo o temido pai primordial, a massa ainda quer ser dominada por uma força irrestrita, anseia pela autoridade num grau extremo, tem, segundo a expressão de Le Bon, sede de submissão. O pai primordial é o ideal da massa, que domina o eu em lugar do ideal do eu” (Freud, 2013, p. 139).
Semiose, autopoiese e a processualidade sistêmica
A ideia de unidade que compõe a massa e a definição de massa parece remontar ao funcionamento das máquinas autopoiéticas, ideia desenvolvida pelos biológos Humberto Maturana e Francisco Varela. Segundo os autores, os sistemas vivos possuem organizações mecanicistas e destas surgem suas dinâmicas, fazendo com que as máquinas autopoiéticas se definam como processos de produção de componentes que geram processos, através de contínuas interações e transformações: Dessa maneira, um sistema autopoiético só é possível de existir na medida em que suas unidades se organizem por uma correlação de processos. Como bem definem os autores, “a concatenação autopoiética de processos numa unidade física diferencia as máquinas autopoiéticas de todo outro tipo de unidade” (MATURANA, VARELA, 1995, p. 107). E partir da ideia de autopoiese é que surge a ideia da teoria dos sistemas autorreferenciais, desenvolvida pelo sociólogo alemão Niklas Luhmann. Conforme Luhmann, tudo o que sabemos, sabemos através da comunicação.
Sua reflexão teórica observa a comunicação como a diferença produzida na relação entre os diferentes sistemas e o ambiente, em que ocorrem diversos acoplamentos e disputas. E essa processualidade se tornou cada vez mais complexa em um ambiente midiatizado: “o que ocorre é uma nova dinâmica, em que outros sentidos são produzidos, por conta da comunicação estabelecida, e essa interação colabora com a criação de novos sistemas, dinâmica explicada através da noção de autopoiese, conceito que define a autoreprodução de uma espécie, e que foi deslocado da biologia para as ciências sociais pelo autor, ao considerar a observação do objeto através da interação entre seus elementos” (Rosa, 2021, p.77).
É importante fazer, neste ponto, um parênteses, para que se reforce a problemática da semiose e da análise dos discursos sociais. Para Eliseo Verón, a rede semiótica é um tecido multidimensional de mediações que se encadeiam e não se encaixam, “repetindo sem cessar o processo mercê do qual qualquer coisa é posta em relação com outra por meio de uma terceira” (1980, p.188). O autor já chamava a atenção para este ponto em sua obra, A Produção de Sentido, quando afirmava que é evidente que “do ponto de vista da análise de sentido, o ponto de partida não pode ser o senão o sentido produzido”.
O acesso à rede semiótica implica sempre um trabalho que se exerce sobre fragmentos extraídos do processo semiótico e, por conseguinte, em relação a uma cristalização (resultado da intervenção da análise) em três posições funcionais. Trabalha-se, assim, com estados, que não passam de pedacinhos do tecido da semiose, transformados em produtos pelo recorte. A possibilidade de qualquer análise do sentido repousa na hipótese, fundamental, de que o sistema produtivo deixou traços nos produtos; por outras palavras, que o primeiro pode ser (fragmentariamente) reconstruído a partir de uma manipulação dos segundos. Pois, “analisando produtos, visamos a processos” (VERÓN, 1980, p.189).
É possível visualizar essa processualidade, abordada por Verón, através da intensificação da ambiência comunicacional midiatizada, na qual, com o surgimento da internet, ocorre uma complexificação dos processos comunicacionais, que se tornou autoreferente, por conta do deslocamento da mediação com relação à produção discursiva e à produção de sentidos: ” a sociedade em midiatização interage contigo mesma, por meio dos dispositivos interacionais midiatizados, se tornando referência sobre si mesma. Essa situação foi se modificando ainda mais, à medida que os processos comunicacionais foram se complexificando, com o uso da internet. De acordo com Fausto Neto (2028, p.11), pode-se perceber uma transformação nesse sentido, quando ocorre “um delineamento de um outro período caracterizado pela intensificação de tecnologias transformadas em meios […] afetando todas as práticas sociais” (Rosa, 2021, p.66).
Essa complexificação permitiu novas negociações e disputas, pelo fato de que esse processo de coreferencialidade permitiu um processo de interpenetrações entre sistemas diversos, fazendo com que os acontecimentos não mais sofram a mediação da mídia jornalística, ou de dispositivos midiáticos, mas que se ampliassem a todos os dispositivos deste sistema, provocando uma série de disputas e negociações, que retornaram à sociedade, ressignificando sentidos:
A ambiência da midiatização, que é viabilizada através da internet e das redes, permite, por meio das suas conexões, que o processo de correferencialidade se amplie a todos os dispositivos do sistema, fazendo com que novos acontecimentos sejam provocados através de disputas e/ou negociações, vindas de interpenetrações de sistemas. O acontecimento, dessa forma, retorna midiatizado para a sociedade, porém autorreferenciado. Suas manifestações não são mais centradas nas mídias, mas sofrem a afetação dos processos tentativos dos diferentes sistemas, através de dispositivos como redes sociais, sites, blogs e as próprias mídias. Ou seja, quando o acontecimento começa a circular pelo aparato midiático, modificando e sendo modificado por ele, ele afeta de forma mais perceptível os campos sociais. Então os acontecimentos agem transformando sentidos, porque a notícia que dispara o processo gera uma série de significações novas. O acontecimento em uma sociedade permeada pelo resultado da diferença entre sistemas, pode vir a ser processos fugazes de significação, que se retroalimenta pela autorreferencialidade, e que se reforça a partir das autopoieses, ou seja, só são reproduzidos se os elementos que o compõem forem providos de capacidade de conexão, permitindo o surgimento de novos sentidos e acontecimentos que derivam dele mesmo (Rosa, 2021, p.78).
O ataque de 8 de janeiro
Retornando ao trecho em que Gustave Le Bon descreve as massas, citado por Sigmund Freud, é uma dedução plausível pensar que essa ideia ilustra muito bem as características da massa que se organizou para invadir e vandalizar as sedes dos poderes executivo, legislativo e judiciário em Brasília no dia 8 de janeiro de 2023. E também demonstra essa processualidade sistêmica, na qual atores sociais protagonizam um enfrentamento ostensivo com os sistemas político, judiciário e executivo, algo nunca visto na história do país. Uma ação produzida por uma massa organizada em sua estratégia, porém de atitude bárbara, um bloco fanático e primitivo, que em sua insurgência delirante de golpe motivou uma ameaça contra a democracia, usando pedaços de pau e pedras ao quebrar os símbolos das sedes democráticas. Sua intenção era questionar o processo eleitoral, apenas por demonstrar descontentamento com o bloco político que venceu as eleições.

Essa massa, um coletivo de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, inconformados com o resultado das eleições presidenciais de 2022, invadiram, sem resistência alguma das forças de segurança de Brasília (Polícia Federal e Exército) e com isso, com a conivência destes, a Praça dos Três Poderes e depredaram completamente o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e a sede do Supremo Tribunal Federal (STF). Deste grupo, alguns já estavam acampados em frente ao Quartel General do Exército do Distrito Federal e um volumoso grupo se juntou a eles naquele fim de semana, vindo de ônibus (o ataque ocorreu no domingo, dia 8 de janeiro de 2023). Em meio à invasão, os três prédios ficaram completamente destruídos, com vidros e móveis quebrados, peças históricas e obras de artes vandalizadas, documentos e objetos roubados.
Esse acontecimento foi considerado pela imprensa ataque um sem precedentes na história política do Brasil. O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva decretou intervenção no Distrito Federal, determinando o afastamento do governador Ibaneis Rocha, por omissão. Mais de 2 mil pessoas foram presas pelos atos. O episódio também culminou na exoneração do comandante da Polícia Militar do Distrito Federal, Fábio Vieira e do Secretário de Segurança do Distrito Federal, Anderson Torres, que foram presos. Entre os indivíduos que participaram dos atos terroristas, muitas selfies foram postadas, assim como stories e lives, como atos de bravura e heroísmo.

A maioria usava roupas nas cores verde e amarelo, porém, muitos também usavam camisetas e carregavam bandeiras com o rosto de Jair Bolsonaro. A violência era o que se destacava nas atitudes dos golpistas. Nas imagens, que eram publicadas nas redes sociais e transmitidas ao vivo pela televisão, o público assistia vidros sendo quebrados, poltronas da sala do STF voando, o prédio do Palácio do Planalto e a sede do Congresso Nacional sendo completamente depredados, oficiais e cavalos da cavalaria do Exército sendo agredidos. Posteriormente, a imprensa noticiou a dimensão da tragédia, em que o patrimônio público e artístico brasileiro havia sido dilacerado: o quadro “Mulatas”, de Di Cavalcanti havia sido esfaqueado em várias partes e um relógio de mesa, do século 17, pertencente a Dom João VI, presente do Rei Luiz XIV, completamente destruído, jogado ao chão.

Neste texto, vamos nos concentrar na organização das massas que este ato teve, e na comunicação utilizada para que esse ato fosse formado, assim como iremos realizar uma análise sobre a produção de sentidos que se estabeleceu neste caso, tanto por parte do grupo que mobilizou o ato, quanto da repercussão que o caso gerou na sociedade. A organização do ato já ocorria desde novembro de 2022, quando os apoiadores de Bolsonaro decidiram acampar na frente dos Quartéis Generais dos Exércitos de diversas cidades do Brasil. Essa decisão ocorreu posteriormente ao resultado das eleições eleitorais de 2022, que elegeram como presidente Luís Inácio Lula da Silva, derrotando o candidato Jair Bolsonaro. Desde então, foram criados vários grupos de Whats App e Telegram, com o objetivo de mobilizar algum ato que contestasse o resultado das eleições por parte dos apoiadores bolsonaristas.
A mobilização, que culminou em 8 de janeiro, se concentrou na organização de um evento que teria como código “Festa da Selma” e que demonstrava, através de um planejamento estratégico, um mapa de ação, com lugares de onde as pessoas poderiam pegar ônibus para irem até Brasília e com indicações das refinarias e distribuidoras de combustível, que o grupo pretendia paralisar após os atos terroristas, o que foi inclusive executado na noite do dia 8 de janeiro, mas foi rapidamente dispersado pela Força Nacional.

Print do mapa “Viagem para a Praia” que continha instruções de como agir e pontos de transporte gratuito até Brasília
As postagens que compartilhavam o mapa também revelavam instruções detalhadas de como agir e a previsão de que seria um ataque violento. Em uma das postagens do grupo, um dos moderadores alerta: “Patriotas, agora é guerra. Não é manifestação pacífica (…) Cercar os 3 poderes. Brasília” (UOL, online). A ideia de barbárie também se manifesta na comunicação a seguir, retirada de uma das postagens de um dos grupos do Telegram, como demonstra a reportagem do site UOL[3]: “O código é festa da Selma, vai acontecer uma festa de aniversário enorme e existe uma organização muito grande para juntar e preparar os convidados (…) a organização antes da festa vai ser em um lugar não conhecido, onde as pessoas estão há mais de 65 dias [referência ao Quartel General do Exército em Brasília]. E de lá todos sairão para a festa [Praça dos Três Poderes]. […] [A festa da Selma] não convidou crianças e nem idosos, quer somente adultos dispostos para participarem de todas as brincadeiras, entre elas: tiro ao alvo, polícia e ladrão, dança da cadeira, dança dos índios, pega pega, e outras. […] É importante que cada um leve suas coisas pessoais de higienização e proteção, inclusive: máscara para não ficar ardendo com a torta de pimenta na cara e soro fisiológico para se limpar caso espirrem algo que faça vocês chorarem e lacrimejarem, mas não de alegria, durante a festa.[…] Preparem-se convidados, a festa será um estouro. A paleta de cores será verde, amarelo, azul e branco. E a galera de uniforme vermelho não foi convidada” (UOL, 11/01/23, online).
Na comunicação, é possível perceber que a organização do ato terrorista tem a exata noção de que as ações terão repressão policial, tanto que advertem para o uso de máscara, muito provavelmente insinuando que no local haverá gás lacrimogêneo e gás de pimenta. Também mencionam que não recomendam a presença de idosos e crianças, mas “adultos dispostos para participarem de todas as brincadeiras”, como tiro ao alvo. Também reforçam a simbologia do uso das cores verde, amarelo, azul e branco e que a “galera de uniforme de vermelho não foi convidada”.
A reportagem do UOL afirma que também havia grupos de Whats App direcionados por regiões, com nomes genéricos, como “Sertanejo”, direcionada à região do Centro Oeste, mas os jornalistas apuraram que as mensagens foram apagadas. Entretanto, a matéria teve acesso a algumas mensagens trocadas por um outro grupo, de nome “Caça e Pesca”, que dava instruções bem específicas de invasão ao Congresso Nacional, com a intenção “de derrubar o governo”: “Pessoal, o povo em massa tem que preencher todo esse espaço principalmente dentro e fora do congresso. Aí sim derruba o governo (UOL, online)”.
Com relação à cobertura das mídias ao acontecimento, houve, por parte dos jornalistas que cobriam o evento, um discurso autorreferencial, que se traduziu na maneira como se referiam ao ato e aos próprios integrantes do ato. Essa processualidade pode ser observada na cobertura de quatro emissoras: GloboNews, Rede Globo e CNN. É interessante observar a temporalidade da cobertura dos fatos, que na televisão aberta, demorou a acontecer. A Rede Globo, que no momento do acontecimento, transmitia o filme “Os Vingadores”, interrompeu a sua programação somente depois do pronunciamento do presidente Luís Inácio Lula da Silva, e começou a transmitir ao vivo o que estava acontecendo em Brasília, de maneira ininterrupta, com edição especial do programa Fantástico sobre o ocorrido. As emissoras Globo News e CNN, por se tratarem de emissoras que têm como proposta transmitir jornalismo em tempo real, exibiram na íntegra todo o acontecimento. E em suas gramáticas, produziram discursos em que tratavam o acontecimento como tentativa de Golpe de Estado e atentado terrorista. Outra denominação bastante usada foi a de que aquele episódio não havia precedentes na história do Brasil. Um dos casos mais emblemáticos envolveu a entrevista[4]entre a jornalista Daniela Lima, da CNN com o Deputado Federal Ricardo Barros, que já foi líder do governo Bolsonaro na Câmara dos Deputados. A jornalista o questionava sobre a gravidade dos atos e interrompeu o político quando ele usava seu tempo de fala para questionar a legitimidade das urnas eletrônicas. Podemos citar esse caso como um exemplo de tentativa de dissonância cognitiva por parte do deputado, e a interrupção da jornalista, que depois esclareceu que não havia embasamento algum para questionamento das urnas eletrônicas ou do processo eleitoral, como um esclarecimento público e prestação de serviço, além de uma disputa discursiva entre os sistemas político, comunicacional e jornalístico.
Breves conclusões
Embora o caso seja bastante complexo para analisarmos todas as camadas e nuances envolvidas, apresentamos aqui recorte analítico, buscando investigar o fenômeno que abarcou a processualidade envolvida no atentado aos Três Poderes em Brasília em 8 de janeiro. Imagino que esse estudo caiba um aprofundamento maior e também haveria uma possibilidade de realizar um aprofundamento dos perfis psicológicos que compõem essa massa da extrema direita no Brasil. Entretanto, seria um tema extenso, que não caberia em um artigo. Contudo, sugiro aqui algumas inferências e considerações sobre o caso.
A partir da ideia de Freud sobre como as massas se constituem, percebemos essa identificação dos bolsonaristas a um líder idealizado, uma figura paternalizada, que em seu imaginário, é uma figura forte, implacável e dominadora. A identificação de tantas pessoas de perfis diferentes a uma única figura que concentra os mesmos ideais coletivos de uma massa, foi possibilitada através da aglutinação de diferentes perfis, que se sentiam oprimidos por uma sociedade que os rechaçava, por pensar de uma forma que os condenava perante a sociedade. Quanto a internet permitiu que esses grupos se aglutinassem, houve o fator que fez com que esses grupos se unissem e criassem uma mentalidade de massa: a figura política de Jair Bolsonaro, que se vendeu como um outsider, cujas opiniões intolerantes passaram a ser vista como uma opinião diferente. Essa manifestação criou em seu grupo um fenômeno de dissociação cognitiva que acabou por validar quem tinha vergonha de se manifestar como racista, homofóbico, machista ou intolerante religioso. E o grupo se tornou uma massa totalitária, que possui um respeito ilimitado pelo tradicional e repudia veementemente qualquer manifestação de novidade. Entretanto, o gatilho que catalisou esse movimento foi o ódio ao diverso, à inclusão social, ao que se manifesta favoravelmente a uma forma de pensar que contempla a diversidade coletiva, como os movimentos de esquerda, sobretudo o Partido dos Trabalhadores, representado pela figura mítica do presidente Lula. Dessa forma, para o grupo que atacou as sedes dos Três Poderes em Brasília, se manifestou como um fenômeno de dissonância cognitiva em duas frentes: pela validação do grupo, que deseja aniquilar tudo o que se manifeste diferente de seu pensamento totalitário, e isso inclui ameaçar de morte o líder antagônico ao seu, mesmo que ele tenha sido eleito democraticamente; e pelo fato deste grupo querer confirmar suas próprias crenças, impô-las como verdade, pois a concordância entre elementos de um grupo tende a criar uma forte reação de dissonância.
Dessa maneira, temos complexas processualidades, que se manifestam, de um lado, através de uma massa organizada, que promove o planejamento de um golpe de Estado através das redes sociais, e a disputa deste grupo com toda e qualquer pessoa que ofereça dissonância ao comportamento do grupo. E esse comportamento é sugestionado por seu líder, que categoriza como “a galera de uniforme vermelho” todas as pessoas que o contestam ou que buscam contrapor seus argumentos. E assim, essa demonização acabou se materializando como a própria democracia, o inimigo a ser “combatido” pela massa bolsonarista, ato simbolizado através da vandalização nas sedes vazias da Praça dos Três Poderes em Brasília no dia 8 de janeiro.
[1] Vice-presidente do Centro Internacional de Semiótica e Comunicação
[2] Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=QRhkzthRpDA&list=PL8cOffpjIT2AdZ4FjXeLoshvAlfgun2h4&index=15>. Acesso em 24 jan 2023.
[3] Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2023/01/11/mapa-online-onibus-brasilia-ato-golpista-8-janeiro-preparacao-confronto.htm Acesso em 27 jan 2023.
[4] Disponível em <https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2023/01/5064653-daniela-lima-interrompe-ex-lider-de-bolsonaro-que-legitimou-atos-terroristas.html>. Acesso em 20 jan 2023.
Referências Bibliográficas
FESTINGER, Leon. Teoria da Dissonância Cognitiva. Zahar Editores. Rio de Janeiro, 1975.
FREUD, Sigmund. Psicologia das Massas e Análise do Eu. L&PM Pocket. Porto Alegre, 2013.
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